Monday, August 04, 2008

THE GREEN FISH, chapter 3

This story reads in the usual order of blog posts. It was interrupted here in 2007, after being published through Lulu in Costa 1 and Costa 2 . If you wait long enough maybe you will be able to read the final chapter.

Thursday, July 17, 2008

HOME-MADE BREAD

6.48 AM. Breakfast bathed by the raising sun.

Life in the country is undoubtedly less stressing than life in the big city. There are lots of birds. And also lots of lawnmowers, hedge trimmers, cement mixers, drills, and church bells to pridefully hammer our ears at dawn.

Tuesday, July 15, 2008

DE MÁLAGA, COM ARDOR

Encontrei estes desenhos num velho CD muito bem guardado (mas não tão bem preservado, só passando as imagens pelo Flash consegui que elas saissem aqui com a cor original), ainda do tempo em que estávamos em Málaga. O blog que eu escrevia na altura não tinha imagens.

Monday, July 14, 2008

HAIL AND THUNDER

Wind NNE 11 kph
Humidity 68%
Barometer 982 mb

At 4.30 PM

I slept with the window open (it has been very hot). Big thunderstorm, at dawn. Strong winds. Hail and thunder. When I took my feet out of bed there were ice pellets all over the floor.

Saturday, June 21, 2008

THE LAST OF THE FERAL

The Croatian satirical newspaper Feral Tribune closed its doors.

Although I don’t know Croatian enough to read it, I had the opportunity to read some of its articles translated in Courrier International, during the 90s, when it was considered by many the only serious newspaper around here.

I hope they can find a way out of the troubles they attracted for being the only really critical newspaper in Croatia and come back again.

Friday, May 30, 2008

CRUELTY TO SNAILS

Photographs J.G.

“Look how he cries for help.”

“The little mouth still open in desperate need for fresh air.”

“I tell you, death is cruel to the animals we eat. Death is even crueler to snails. We have to cook them slowly, so they get out of the shells while the water warms up and we have no trouble in picking them with a toothpick when they are ready.”

“The same with the big ones?”

“Caracoletas, you mean? Those ones have a trick. You grill them in a metal sheet and see them suffer in direct. Spread salt over the sheet, so they avoid turning themselves on it, and they cook inside their own shell. They contort desperately and while doing so they get out. You just have to make sure they don’t turn over. Then prepare the sauce, usually very fat and spicy. Are you still interested?”

“I’m afraid of nothing!”

“Since you’re a brave sailor I tell you another way of grilling caracoletas somebody told me once. I don’t know if it works, but since you’re afraid of nothing maybe one day you’ll find out. Prepare a coal fire and when it’s ready, put the caracoletas gently over the coals, shell down. Then put a cold metal sheet over them. The artist that told me this said it was the best way, because then they stick to the sheet trying to escape and they cook evenly on both sides. What? Are you loosing your appetite?”

“I may give up the snails, after all.”

“What? Do you think lobsters and shrimp feel better, when they are being cooked alive? Are you ready to give them up too? I tell you what is, for me, the best way of doing the little snails we find in the south of Portugal. Cook them in water with salt slowly, as I told you, for around half an hour or a little more. Some time before they are ready join sticks of oregano. Not the leaves, they give a sour taste to the snails, just the sticks. Some people also use piri-piri, other ones prefer pepper. Other way of doing them is with olive oil, garlic, onion, laurel, oregano, pepper and/or piri-piri. Some people even use bacon! Barbarians!”

C

Friday, May 23, 2008

AS CHAMINÉS DE MELVILLE

Ilustração Nina Govedarica

“... for it is resolved, between me and my chimney, that I and my chimney will never surrender”.
Herman Melville, I and my Chimney (Setembro 1855).

Os pequenos demónios têm o hábito de se introduzir no ouvido quando estou mesmo a deixar cair as pálpebras de cansaço. Não que tenha ilusões de que vá conseguir dormir. Não quero gritar, por isso cerro os maxilares, mas cerro-os com tanta força que se deve ouvir nas outras camas, apesar do barulho da lona a bater furiosamente contra os varais.
A luz é amarelada e a lona que em tempos foi branca está salpicada de manchas de ferrugem onde as ilhoses lhe tocaram, ao ficarem guardadas no porão, e de sangue que parece ferrugem, onde lhe roçaram mãos e ligaduras.

De vez em quando sai-me um som do fundo da garganta, não há nada a fazer para o impedir, quando as pequenas lâminas afiadas rebentam de súbito e cortam o osso em todas as direcções. Ou o corpo encolhe-se. Ou a cabeça abana como a cabeça dum cão picado. Como, por exemplo, quando o maldito bicho entra a matar pelo ouvido adentro.
Na cama ao lado, o Fataça percebe qual é o meu problema e olha-me com tristeza. O Fataça tem uma teoria e custa-lhe que não a leve a sério e seja tão estúpido que prefira sofrer ainda mais do que aquilo que o meu corpo me obriga a sofrer.
“Contou-me um marinheiro russo, um tipo com cara de bolo-rei e olhos em bico. Lá na terra dele, dizia-me, têm mosquitos grandes como salmões. Sim, como salmões. Era o que ele dizia, e também me ensinou como ficar em paz com os mosquitos. Uma pessoa tem que manter a calma, deita-se e faz de conta que o mosquito é como um cão ou um gato, ou outro animal doméstico que está ali ao lado de vigília. Sossegado.”
A teoria dele irritava-me mais do que me entretinha e não me contive que não o interrompesse.
“Ó Fataça! Parado estou eu aqui, sem me conseguir sequer levantar para ir mijar que não me caiam todos os talhantes do inferno em cima dos ossos, e eles não me largam o pavilhão!”
Ele não percebeu esta do pavilhão, e eu que queria ser mesmo mau não lha expliquei.
“Vá por mim”, continuava ele pacientemente, alheio à minha vingativa injustiça, “por certo o meu tenente não quer ficar como aquele ali.” E apontou para um tipo que passava noite e dia sentado, balançando-se e gemendo baixinho, com um cobertor cobrindo a cabeça. Nunca tinha pensado que o drama dele fossem mosquitos e calculei que o Fataça estivesse a inventar aquela para me impressionar. “Cada vez que aquele se vira aos mosquitos, eles não o largam. Até grita com eles! Uma desgraça.”
“Pensava que gritasse de pânico. A desgraça dele foi um estouro que lhe rebentou os ouvidos, e não os mosquitos. Fataça, por amor de Deus! Como quer que acredite nessa?”

Passa um sargento devagar, frente à abertura da tenda, mãos atrás das costas e ombros atirados para trás, a pala sobre os olhos e o francalete pelas beiças, a imitar um oficial inglês de jornal ilustrado. Vê-se o vento a bater-lhe nas calças brancas de pano farto e as folhas das árvores a marcar-lhe o ritmo.
Lá ao fundo, ou bombarda ou trovoada, já nem sei qual é qual, a envolver-nos. Aqui, o vento. As árvores abanam com raiva, as lonas batem tímbales com fúria, e não dão mostras de sossegar. Já vai assim, sem chover, no terceiro dia de ameaça de temporal.
Está calor e cada vez há mais mosquitos. Porque é que o vento não os leva para longe? Ocorre-me que o vento os tenha trazido de longe. Para este sítio de refúgio, onde a Natureza rufa mais do que a guerra. Estamos cercados de chuva e trovoada por muitos quilómetros em redor, um inimigo medonho, cinzento escuro e pesado, que nos aperta. Só aqui o céu está azul. É a ilha dos mosquitos.

Lá em baixo, junto à água, deve estar mais abrigado, mas não quero que me mandem para lá. Voltar para trás nunca me pareceu boa coisa e eu já estou bastante atrás. O médico disse-me que assim que chover me ponho a andar. “Na sua idade não é muito normal”, como é que ele pode achar que tal coisa pode ser normal seja em que idade fôr, “isso vai, se não for a bem, vai a mal.” E deu-me um minúsculo frasco castanho com láudano, que me ajuda tanto como o vento ou os mosquitos de cada vez que as navalhas muito afiadas se decidem a cortar-me os ossos dos pés em lascas muito finas, que se separam numa multidão de pedaços de vidro. Daqui para a frente já não há justiça nem injustiça, não há vento nem mosquitos.
Por falar nisso, um deles passa devagar mesmo à frente dos meus olhos. Já não lhes ligo. Eles também não. Disfarço, para que o Fataça não perceba que estou a dar razão à sua teoria. Mosquitos grandes como salmões! Russos com cara de bolo-rei! Como dar-lhe razão em tamanhos disparates, não me dizem? Mas um problema já está resolvido. Agora só falta andar.
As lonas revoltam-se com renovada força e a da minha frente solta-se num canto, que bate como metralha. Encolho-me todo. Os pedaços de vidro moído explodem em outras tantas ampolas de ácido. Tento não pôr os pés em cima de nada. O sargento passa por detrás das tendas, soltando berros que o vento se encarrega de apagar. Ponho os pés no chão.

Lá ao fundo, para lá da lona que se levanta e bate furiosa, por detrás das copas das árvores baixas que se espalham monotonamente pelos trezentos graus de terra firme que nos rodeiam, recortam-se contra o horizonte escuro as silhuetas solenes e divertidas das chaminés de Melville.