Monday, November 05, 2012

A VALSINHA DAS BIFANAS

Eles correm a comparar bifanas, de associação em associação, à saída do Amadora BD, umas são as melhores bifanas do mundo, outras mais modestas as melhores do país, outras apenas as melhores e está o assunto arrumado. Eles comem rigorosamente tudo da bifana, cantando loas à carne, ao pão e ao alho a cada dentada, em frases curtas e gordas. À antepenúltima dentada já estão a mastigar novo pedido e a última migalha sai acompanhada de um sonoro quero mais uma. E afinal, uma das bifanas é um prego.

Eu não sou muito de medalhística, isto de medalhas faz-me sempre lembrar a valsinha*, e para mais não gostei nada de ver o livro Sangue Violeta, apesar dos trinta anos das histórias que lá estão, nomeado para o prémio Clássicos da 9º Arte. Faz-me sentir velho. Isso e a dificuldade em equilibrar a caixa aberta com a placa (pesada!) numa mão e o microfone na outra.
Ora eu penso que o papel dos festivais de banda desenhada não é fazer com que os autores se sintam velhos ou jovens medalhados, preferidos ou preteridos, mas sim criar condições para que os autores possam desenvolver a sua arte. O que eu tenho visto nos últimos vinte anos é que os festivais têm criado condições a muita gente e apenas excecionalmente a um ou outro autor. Os ursos, afinal as estrelas da feira, como já muita gente reparou, apesar da questão lhes ser basicamente indiferente pois têm mais com que se preocupar, têm sido sempre os últimos a comer. Para mais, os últimos vinte e tais anos moldaram uma situação editorial autofágica e estéril para a criatividade que, essa, rebenta por todos os lados mas que se vê assim condenada à marginalidade das pequenas edições. Enquanto o urso aguentar.

Mas como a atribuição de um prémio tem sempre alguma graça (faz sempre algum sentido, seja lá ele qual fôr), juntei alguns para a fotografia. Estão lá os dois deste ano, o troféu especial do júri Central Comics e o Clássicos da 9º Arte.

Agora, vamos à bifana! Música!

* A Valsinha das Medalhas, Rui Veloso.

Monday, October 01, 2012

LOST HEROES

O ano de 2009 viu projetos começados, retomados várias vezes e em versões diferentes, nos anos seguintes, mas nunca acabados. 2010 foi o ano apostado em preparar a mudança, que terminou no regresso a Portugal para a realização do filme Fado na Noite. 2011 foi o do enterro no lodaçal em que o país se transformou. Apesar disso o filme foi acabado em 2012, dentro do prazo. Mas o lodaçal estende-se a perder de vista e todo este período a patinhar na lama não foi especialmente criativo.

Um dos projetos iniciados em 2009 tem ainda hoje como título provisório O Arrulhar das Fúrias, um dos vários que lhe fui dando, e cresceu um pouco, engordou o argumento, ao longo deste período. Acabou por tornar-se no princípio de uma coisa séria.
Mas, enquanto o argumento engordava eu ia-lhe arranjando companhia, personagens mais ou menos importantes para a história, como se ela não pudesse sobreviver sem um exoesqueleto de heróis, sempre com uma personagem feminina à cabeça. Podem ver-se algumas das figuras na amostra acima.

Estas figuras têm duas coisas em comum: uma, a história que pretendem dirigir, nas suas várias versões, e, duas, o facto de serem descartáveis. É um acontecimento muito comum, na vida, figuras que pretendem dirigir alguma coisa serem, na verdade, descartáveis.

Pois, a bem da história, eu descartei-as. Vou dar-lhes emprego, a algumas como figurantes, mas apenas isso.

Mas não vou largar a história. Com as Fúrias não se brinca!


Nota: apercebi-me, há pouco tempo, que há quem faça uma leitura rigorosamente literal do que é escrito aqui. Convém por isso assinalar que este texto não é uma lista exaustiva das minhas atividades destes anos, nem sequer dos acontecimentos ligados à banda desenhada (houve dois livros, um prémio, vários festivais etc.), se bem que o panorama tenha sido, no geral, duma grande pobreza. Convém, ainda, assinalar, a propósito desta minha última afirmação, que isto não significa que o que se fez tenha sido mal feito, mas sim que foi pouco, muito pouco, mesmo. Convém, ainda, assinalar, a propósito desta minha última afirmação, que ela se refere sobretudo a uma situação geral, a um conjunto de particulares e a uma conjuntura que nos abrange a todos, e não a nenhum particular em especial, ou ao próprio. Se me esqueci de algo, estou aberto a esclarecimentos.


Saturday, August 25, 2012

VORAZ NAS VOLTAS DO VINDALHO

A família Voraz há muitas gerações que é dada à curiosidade e à culinária. Um antepassado meu, chef de governadores e vice-reis, foi mesmo o primeiro português a pisar terras do Japáo.
Desembarcou, levando consigo um ukulele e um bacalhau, que entregou a um japonês.
O japonês, que se chamava Heizo, disse "Arigato" e presenteou-o com um telemóvel.
Pensando – erradamente – que "arigato" era derivado de "obrigado", e que portanto não seria o primeiro português no Japão, Voraz retirou-se amuado para a Índia, abdicando daquela glória.
De regresso a Goa, Voraz convidou um colega indiano, chamado Sanjay, para almoçar, e mostrou-lhe a prenda que trouxera do Japão.
"É um telemóvel", disse Sanjay. "E como uso eu isto?" perguntou Voraz. Sanjay disse-lhe que tinha que o desbloquear, "Posso tratar disso, mas em troca ensinas-me o segredo deste magnífico prato que estamos a comer."
Apanhado de surpresa com um bocado de carne entre os dentes, já atacados pelos doces, pelo beri-beri e pelo escorbuto, Voraz retorquiu "Osto? É corne de porku êm vin'd'alho."
"Ah, vindaliu", exclamou Sanjay. "Vin'd'alho! Vin'd'alho!" soprou, desesperado, Voraz por entre fibras rebeldes de carne. Mas, como mandava a cortesia, aceitou a troca.
Nas mãos hábeis de Sanjay a carne em vinha d'alhos teve um enorme sucesso, e um dos seus netos vendeu a receita a um grupo de hooligans ingleses de visita, tendo asssim a família de Sanjay enriquecido à conta dela.
Os ingleses chamaram-lhe vindaloo, adotaram-no como prato oficial para acompanhar rios de cerveja e até o transformaram em hino de futebol.
Quanto ao chef Voraz viveu regaladamente o resto dos seus dias. Mas, até ao último suspiro, não parou de se queixar que tinha sido arruinado pelo mau negócio que fizera. E, como é habitual nestes casos, quanto mais dinheiro ganhava, mais ele se queixava.

Wednesday, August 22, 2012

VORAZ: O QUE VALE É QUE O POVO TEM MUITO CARINHO PARA DAR

Há bons pastéis de bacalhau, na minha vizinhança. Mas também há histórias emocionantes.
Morre queimado, durante a noite, um velho que vivia há anos num anexo degradado. Juntam-se muitos vizinhos curiosos, logo pela manhã.
Algum tempo depois, chegam os bombeiros e a ambulância para levar o cadáver.
Retiram-se os bombeiros, chegam os jornalistas.
Retiram-se os jornalistas, chegam dois grandes 4x4. Os ocupantes saem e começam a vestir complicados escafandros. Os escafandristas esquecem-se por certo de alguma coisa, pois os 4x4 desaparecem durante a hora de almoço. A ambulância continua de sentinela.
Regressam os 4x4. Os curiosos são agora raros.
Exatamente oito horas depois de ter chegado, a ambulância abre as portas para deixar entrar o corpo.
Durante as semanas seguintes podem ver-se excursões de famílias inteiras a visitar o local. Mês e meio depois ainda se sente alguma emoção. Como estes dois homens fazendo jogging a um domingo, um obviamente da vizinhança, que aponta e diz: "E ali, morreu um velho." 

Não há dúvida que o povo tem muito carinho para dar. Vai um pastelinho de bacalhau?

Sunday, August 12, 2012

VORAZ COLECIONA TUDO, DE FORMA CAÓTICA, NA SUA MEMÓRIA

Talvez, um dia, outra espécie de bicho mais eficaz do que a nossa, venha dizer que usamos a memória apenas para cumprir funções essenciais ao nosso estreito entendimento do Universo.
Como eles, eu penso que há um espaço muito mais vasto e profundo para a memória. Pela memória posso visitar a minha infância, o chouriço a pingar ao canto da cozinha
o meu primeiro bacalhau de escabeche, a minha coleção de primeiras namoradas
o meu terceiro primo da minha infância, grande e embirrante, em tudo diferente do segundo e do primeiro, o meu primeiro professor de matemática, o meu primeiro dentista e os figurões da adolescência
até consigo meter na minha coleção os figurões do futuro! Porque até há quem afirme que o que vem a seguir, vem primeiro e que o futuro condiciona o passado. É a isto que verdadeiramente se chama matar o tempo.

Mas afinal o que é a memória? Alguém disse que a memória é um lugar estranho para se estar, alguém disse que é um despejo, difícil de vasculhar, não sei se alguém disse que a memória é uma perda de tempo e de espaço virtual, mas se o disse, disse-o mal. Afinal, a memória é um bom sítio para se viajar.

Wednesday, August 08, 2012

FADO NA NOITE, poster and two discarded sketches

The animation movie Fado na Noite will be shown in Cinanima next fall. Here the poster and two sketches for the best alternative for the finished work. This was the "rich" option. Severe budget cuts determined the choice of a much simpler version.

Sunday, May 20, 2012

SANGUE VIOLETA e outros contos

Em cima, a capa do livro Sangue Violeta e outros contos, editado por el pep -- ver texto e pequeno vídeo -- aqui montada sobre recortes de jornais da época, a ser lançado no festival de Beja -- ver programa no kuentro.

Inclui três histórias, ou contos, ou séries, conforme quiserem, Sabina, publicada no jornal Se7e em 1983, uma segunda história de visitas às praias do Algarve (a primeira foi Cevadilha Speed, 1981, publicado em livro por SIBDP em 1998), e Sangue Violeta, que não é uma história, não é um conto, nem propriamente uma série, em 1984, mas que se envolve com um curto conto, Tax Diver, e que terminará diluindo-se em Karlos Starkiller, numa sucessão de histórias, contos ou séries, como lhe quiserem chamar, que durará até 1986.
Karlos Starkiller (publicado por Baleia Azul em 1997), acabou por sair em livro aproveitando uma proposta revista e aumentada, apresentada dez anos antes à empresa editora do Se7e que considerou na altura "não estar vocacionada para a edição de banda desenhada". Cada conto, ou história, exigiu, uma década depois, uma curta apresentação aos leitores, já esquecidos dos acontecimentos anteriores à queda do Muro de Berlim.

Não se passa o mesmo com Sangue Violeta. Esta é mesmo uma edição arqueológica. Tirando duas alterações, todo o trabalho editorial pertence ao Pepe e ao Brito e segue o mais fielmente possível a ordem da publicação em jornal (e, acreditem, não deve ter sido fácil). Fosse eu a fazê-lo e cairia na tentação de eliminar páginas inteiras e refazer outras, e depois explicar o porquê de tudo o que lá está.
Assim, vão ter direito aos concursos e questionários inconsequentes, aos grafismos toscos, aos concertos punk e às minhas tentativas de reforma ortográfica (sem nunca chegar ao exagero de transformar, como os nossos brilhantes ortógrafos conseguiram fazer, espectador naquele que espeta). A propósito, entenda-se que não vejo grande inconveniente na maior parte das alterações feitas pelo acordo ortográfico. É certo que não vai resolver nada do que se propôs resolver e que vai complicar diferenças que o povo já tinha acomodado, mas estraçalhar as regras da escrita é, quanto a mim, sempre divertido. Em qualquer época ou situação geográfica.

Saturday, April 21, 2012

1984

In 1984 I was about to reach 30 and move to the countryside, although not far from Lisbon, and Sangue Violeta was perhaps my last all-suburban tale. It didn’t go far, because it got mixed up with another character, Karlos Starkiller, who went up living his own life in the newspaper (Se7e) I was working for. Bellow you can see the first pages of Sangue Violeta. Inspired at first by newspapers and magazines like Flexipop, i-D and fashion and pop youth magazines, it was quickly taken over by the night scene of Lisbon, Bairro Alto and suburban dramas. Then Karlos Starkiller took the lead and took inspiration from Libération and Actuel. It was the same type of drawing, but a different world.
SKETCHBOOKS. Everybody used these sketchbooks at the time. I tried to be serious about my sketching and note taking and decided to always carry one of them, instead of the usual pieces of paper and cheap notepads. Since then I keep on trying and even moved to moleskines since I returned to Portugal. The result is that all of them are savagely amputated. I’m trying it now with a smartphone, but how can I amputate a smartphone? Bellow, images taken from magazine pictures, Violeta in a final sketch, and easily identifiable figures from Lisbon nights at the time (not all of them still alive, Tenro, sixth picture, was murdered some years after, one night, in a central and well lit square, and the killers were never caught.)

ON THE OTHER SIDE.
My room, seen from the bed (I guess.)
Café at Bordeaux train station, on the way to Angoulême comics festival.
Angoulême, café Le Commerce. I was really trying to be serious about my sketching this time, but it didn’t last long.
Angoulême, café La Paix. I remember vaguely one of these cafés being full of Belgians defending the excellence of Belgian sense of humor.
A quiet corner in a suburban café, back in Portugal.
Two of my sister’s friends.
Katia.
Café Gelo, Lisbon.
Jorge Colombo warming up to sketch something, shaking his Rotring pen. He had a lot of hair, at the time.

Fernando Relvas and Dina, by Jorge Colombo. You can see Colombo thought I was being very noisy. I can’t remember who Dina was, but I remember she was a sweet girl and was complaining that he left most of her out of the picture.


PHOTOS. Since we are in 1984 look at the two pictures bellow. In the first one, as in Colombo’s sketch, I am being very noisy, while everybody is trying to look their best. This is on my birthday, having some beers at Cervejaria Trindade, Lisbon.

 From the left: Jorge, Paula, me making noise with my voice and hands, Nicola, Miguel, Mila.
From the left: Miguel, Mila, me, Manela, Vitinha, Paula, Jorge, Nicola.

Tuesday, February 21, 2012

OLD STORIES - O Ananás que Ri (1997)

This series had a short life, was abruptly interrupted by the publisher (a Lisbon newspaper), practice that was not uncommon at the time, and ended in court, after the publisher refused to take responsibility for the decision (see bellow BIOBIBLIO, in Portuguese).